• 'Eldorado': Marcello Quintanilha lança thriller social ambientado na classe trabalhadora dos anos 50
    Jan 21 2026
    O quadrinista e escritor brasileiro Marcello Quintanilha lança na Europa seu novo álbum, “Eldorado”, publicado em francês pela editora belga Le Lombard. A obra retoma a trajetória do pai, Hélcio Carneiro Quintanilha, ex-jogador profissional de futebol em Niterói, tema que o autor já havia explorado em livros anteriores. “Eldorado” é um thriller neorrealista ambientado no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970. A narrativa acompanha uma família modesta de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: o caçula, Hélcio, sonha em seguir carreira no futebol, enquanto o irmão mais velho, Luiz Alberto, inicia um percurso de delinquência. O livro transforma essas vidas em um drama policial, familiar e político que entrelaça ficção e memória para retratar um país que se desenvolve marcado por extrema desigualdade. O álbum começa com uma sequência em preto e branco na qual Quintanilha reconstrói a formação da sociedade brasileira logo após o fim da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, no ano seguinte. O autor mostra como os africanos e seus descendentes, a força de trabalho que sustentou a economia agrária por séculos no Brasil, foram abandonados pelo novo Estado republicano, que, no início do século XX, optou por substituí-los por imigrantes europeus numa política deliberada de branqueamento. Com a industrialização tardia, em parte financiada pelo capital inglês, o futebol é introduzido no país – primeiro como esporte de ricos, depois apropriado pelas classes populares, sobretudo pela população negra e pobre. Esse movimento, considerado "revolucionário" por Quintanilha, transformou o futebol em expressão social e cultural, e em um dos eixos da identidade brasileira. Para Quintanilha, vencedor do troféu Fauve d’Or no Festival de Quadrinhos de Angoulême (2022) com o álbum “Escuta, Formosa Márcia”, revisitar esse percurso é essencial: “Para mim é sempre importante ter a perspectiva do passado, quais são os pontos que nos ligam com o passado, que têm efeito na nossa vida na atualidade.” Os personagens Hélcio e Luiz Alberto representam dois caminhos possíveis num Brasil desigual: o sonho do futebol e o desvio para a criminalidade. O autor conta que se inspirou na fábula do filho pródigo. “Seria um pouco como recriar essa fábula no seio da classe trabalhadora.” Segundo Quintanilha, Hélcio reproduz a história que trata do pai do escritor, fortemente ancorada na realidade, enquanto a do irmão é ficcional. “Toda a trama policial que a história tem, tudo isso é ficção. Mas espelhada no que foi a realidade do meu pai, o que acho fascinante.” Duque de Caxias imaginária O cenário é ambientado em Duque de Caxias, onde o pai de Quintanilha morou antes de se mudar com a família para Niterói, mas a cidade foi deliberadamente recriada pelo autor. A imagem nasceu das histórias ouvidas na infância. “Enquanto eu cresci, muitas vezes eu ouvia o meu pai contar as histórias do que ele via na cidade de Duque de Caxias, então eu criei uma Duque de Caxias imaginária na minha cabeça.” Sobre a linguagem visual, “Eldorado” traz um grafismo diferente dos livros anteriores. “A história determina a maneira como ela vai ser contada”, explica. A cada livro, ele busca técnicas e decupagens novas. “Cada novo livro é começar exatamente do zero, absolutamente do zero, o que me coloca sempre numa posição de estar sempre pisando em ovos, porque eu nunca sei exatamente qual é o terreno no qual estou me movendo.” E o desconforto vira potência. “O que, do ponto de vista artístico, eu acho muito instigante, porque te coloca numa posição de desconforto que pode ser muito interessante.” Acolhimento do público "Eldorado" é o romance gráfico mais longo do autor (272 páginas), publicado primeiro em francês, com tradução ainda por definir. O livro estará disponível nas livrarias em 30 de janeiro, com distribuição inicial na Bélgica, França, Suíça e no Canadá. Vivendo em Barcelona há vários anos, quando Quintanilha fala do interesse do público europeu pela sua obra, ele descreve uma relação intensa e acolhedora, em consonância com o Brasil. “Eu acho magnífico. Eu sinto exatamente a mesma coisa que eu sinto no Brasil”, afirma. “Eu acho o público sempre muito aberto, sempre muito interessado nas coisas que eu escrevo.” Mesmo quando escreve para leitores de fora, Quintanilha afirma que suas histórias permanecem ancoradas no Brasil – e que isso não impede a conexão. “Todas as minhas histórias estão baseadas na experiência que eu tenho no Brasil, na vida que eu conheci no Brasil, na cultura brasileira, todas as minhas referências vêm do Brasil, a maneira como eu concebo as personagens, a maneira como eu concebo a história (...) todas as dinâmicas fazem referência à cultura brasileira e à maneira como a ficção brasileira foi sendo desenvolvida no século XX.” O alcance ...
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  • Um ano de intimidação estratégica: como Donald Trump redefiniu a política externa dos EUA
    Jan 19 2026
    Nesta terça-feira (20) faz um ano que o presidente norte-americano, Donald Trump, retornou à Casa Branca, e as piores previsões sobre a virulência do republicano se confirmam. Em 12 meses, ele redesenhou a política externa dos Estados Unidos com o retorno do uso explícito da força, o resgate de práticas intervencionistas e uma estratégia de intimidação permanente – inclusive contra aliados. Em entrevista à RFI, o professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da UnB, analisa esse primeiro ano do segundo mandato de Trump e afirma que há método por trás do caos. O método da desestabilização é, segundo o especialista da Universidade de Brasília, a chave para compreender o comportamento de Trump. “Sim, há um método nesse processo e a lógica é de desestabilização”, resume Antonio Jorge Ramalho. O objetivo é manter todos – governos estrangeiros, atores econômicos e até aliados – “sempre na defensiva e divididos”, o que inviabiliza qualquer articulação consistente para conter os movimentos do governo americano. Não se trata de uma estratégia de longa duração, afirma: “Não há uma visão de mundo por trás disso. É um processo de atuação tático”. O bombardeio contínuo de fatos e informações constitui a engrenagem central dessa tática. “Trump cria uma grande quantidade de informações, de fatos, de possibilidades, que obriga as pessoas a pararem tudo o que estão fazendo para reagir.” Nesse processo de saturação, ele consegue impor sua agenda de curto prazo. “Pode ser desde fechar um negócio para a família, conseguir um presente milionário, movimentar os mercados – anuncia uma coisa de manhã e as ações caem; à tarde anuncia outra e elas sobem. Tudo isso permeado por ​​​​inside information”, afirma o professor, que descreve o método como “pressão permanente com objetivos discretos, transacionais e imediatos”. “Ele circula para quem lhe financiou a campanha ou por seus próprios braços no mercado financeiro, e faz dinheiro com isso.” Convicções profundas, mas sem estratégia de longo prazo O professor identifica, no entanto, dois pilares ideológicos que sustentam essas ações. O primeiro é a concepção de poder sem limites. “Ele tem a convicção de que o poder deve ser exercido sem freios e sem cerimônias”, afirma. Para Trump, a ampla capacidade militar, econômica e política dos Estados Unidos deve servir ao engrandecimento nacional – “mas não pelo país em si”. Trata-se de proteger e ampliar os interesses da parcela da sociedade “que dá as cartas”, e que sustenta politicamente o republicano. O segundo pilar é a crença nas tarifas como instrumento central de política externa, herança de um pensamento mercantilista anacrônico. “É uma visão do século 19 em curso no século 21”, diz Antonio Jorge Ramalho. A imposição de tarifas seria, na visão trumpista, uma forma de aquisição de riqueza e poder. Mas, apesar de fornecer ganhos imediatos, produzirá efeitos negativos. “Vai reduzir no longo prazo o comércio e a eficiência da economia americana e global.” Ainda assim, o curto prazo se impõe: “Ele consegue retornos palpáveis, e é isso que o orienta.” América Latina e a intervenção na Venezuela O sequestro do venezuelano Nicolás Maduro por militares americanos, nos primeiros dias do ano, surpreendeu o governo brasileiro e motivou questionamentos na opinião pública sobre a possibilidade de novas ações semelhantes no continente. Entretanto, o professor da UnB afirma que a própria impossibilidade de prever os próximos passos é parte essencial da tática trumpista. “Não dá para saber, e não ficará claro, porque o método consiste justamente em alimentar a ambiguidade”, explica. A fragilidade da estratégia de defesa brasileira Antonio Jorge Ramalho é categórico ao afirmar que a Estratégia Nacional de Defesa do Brasil não está ajustada ao novo cenário regional. “A nossa estratégia precisa ser revista.” O principal problema é a dependência estrutural das Forças Armadas brasileiras em relação aos Estados Unidos. “Há uma dependência visceral. A doutrina, os equipamentos, a formação – tudo é baseado no padrão OTAN.” Essa dependência cria um impasse. “Se houver alguma grande confusão global, na mente dos estrategistas militares brasileiros, nós estaríamos juntos aos Estados Unidos, como estivemos na Segunda Guerra Mundial. Seria uma nova etapa, digamos, de uma cooperação e de uma relação de confiança. Pois bem, essa relação de confiança não existe mais ou não deve existir mais do ponto de vista dos militares brasileiros. Mas é muito difícil você mudar a mentalidade deles", afirma o analista em defesa. Além disso, os militares brasileiros continuam orientados por uma doutrina voltada para um inimigo interno inexistente, o que limita a preparação para ameaças ...
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  • Brasil precisa de uma política industrial para se adaptar a acordo UE-Mercosul, diz professora
    Jan 16 2026
    Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul deverá ser assinado oficialmente neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai, e depois será ratificado pelo Parlamento Europeu. Aprovado por 21 dos 27 países do bloco europeu no dia 9 de janeiro, o tratado prevê a criação de um mercado comum de mais de 720 milhões de pessoas. Para entender melhor o impacto dessa medida, a RFI conversou com Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da graduação e do mestrado da PUC-SP. RFI: Até agora, falou-se muito sobre as repercussões do acordo no setor agrícola, mas durante as negociações o Brasil lutou para defender a indústria brasileira da concorrência europeia. Esse tratado traz oportunidades para a indústria brasileira? Cristina Helena: Sem um projeto industrial claro, esse acordo corre o risco de consolidar algumas das especializações já existentes. Falta ao Brasil uma agenda positiva para a área de indústrias e de serviços. Essa é uma fragilidade peculiar do caso brasileiro e da América Latina. Alguns países têm estratégias um pouco mais definidas, como o Paraguai e a Argentina, mas o Brasil seguramente não tem. Esse acordo deve trazer muito aprendizado para o Mercosul. Por exemplo, a Alemanha tem uma indústria muito forte de máquinas e equipamentos, e o acordo tende a consolidar ainda mais esse setor alemão. Ao mesmo tempo, pode reduzir o espaço das indústrias brasileiras do mesmo segmento. O ideal seria que, numa perspectiva multilateral, construíssemos cadeias produtivas integradas. Mas falta ao Brasil uma agenda doméstica e um plano consistente de reindustrialização. Entramos, portanto, de forma frágil nesse processo. RFI: As pequenas e médias empresas brasileiras estão preparadas para concorrer no mercado europeu? Cristina Helena: Seguramente não. Tampouco estão preparadas para identificar oportunidades de integração em cadeias produtivas com indústrias europeias. Os países europeus construíram, por meio de acordos complexos, um mercado altamente integrado. Mas isso ainda é um campo de aprendizado para o Mercosul. Os países do bloco precisam aprender a lidar com esse tipo de custo político em nome de um projeto de longo prazo. RFI: Alguns pontos em que o Brasil poderia se beneficiar são a transição energética e o agronegócio sustentável. A senhora acha que o país está preparado? Cristina Helena: Sim. O Brasil vem há bastante tempo trabalhando sua agropecuária com critérios e padrões internacionais. A agricultura brasileira é competitiva, produtiva e profissionalizada. Além disso, o país tem uma capacidade de produção de energia limpa inigualável. RFI: O acordo entre a União Europeia e o Mercosul cria previsibilidade para investimentos no atual ambiente de retorno do protecionismo e de instabilidade geopolítica? Cristina Helena: Acredito que sim. Ele abre espaços importantes de previsibilidade em relação aos acordos tarifários e de integração de mercado. Essa previsibilidade e essa segurança estão se perdendo no cenário global, especialmente em razão da atuação do presidente norte-americano, Donald Trump, que costuma ser bastante intempestivo em suas decisões. A União Europeia, ao contrário, tem uma governança sólida e uma estrutura política de construção de acordos que não é intempestiva. Isso confere maior estabilidade a acordos firmados com o bloco europeu. RFI: Maior integração comercial favorece protagonismo político? Cristina Helena: Diria que sim. O Brasil, sobretudo nos últimos anos, vem se colocando como uma voz importante na América Latina em defesa da democracia. Também é um ator político relevante internacionalmente, já que fala a partir de um espaço regional significativo, com projeção global. Isso é oportuno porque nos coloca numa posição que evita alinhar-se automaticamente às rivalidades entre Estados Unidos e China. RFI: Como a senhora avalia a resistência da França ao acordo UE-Mercosul? Os agricultores estão preocupados, mas setores industriais, bancos, consultorias e empresas de energia franceses estão de olho no novo mercado. Cristina Helena: A França sempre foi cuidadosa. O multilateralismo, para o país, é uma questão comercial e também uma arquitetura política que permite preservar uma margem de manobra nacional. Vejo que a França tem sido muito cautelosa em atender aos seus interesses internos.
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  • Paris ganha galeria dedicada à arte contemporânea brasileira no Village Suisse
    Jan 15 2026

    A Gávea Galerie, criada pelo brasileiro Luiz Machado – radicado há três décadas na França –, acaba de abrir as portas no Village Suisse, endereço tradicional do 15º distrito e a poucos minutos da Torre Eiffel. A inauguração ocorre em um momento estratégico: ‘Paris voltou a ser o centro da arte mundial, sobretudo da arte contemporânea’, afirma Machado, apontando a força das grandes fundações e o enfraquecimento do mercado londrino.

    Adriana Moysés, da RFI em Paris

    A proposta da Gávea Galerie é trabalhar com nomes brasileiros de primeiro plano. “Começamos com três artistas e o quarto já está a caminho”, explica Machado. Entre eles, o carioca Gonçalo Ivo, “o grande colorista brasileiro atualmente, um dos melhores do Brasil”, com quem o galerista mantém uma relação de afinidade há mais de duas décadas. Também integra o time Jaildo Marinho, escultor pernambucano radicado em Paris, “um dos grandes artistas brasileiros que trabalha com mármore de forma maravilhosa”. A terceira é Lilian Morais, artista baiana que Machado traz pela primeira vez à Europa: “Espero que vá fazer sucesso, porque é uma artista de muito talento”.

    Segundo Machado, o público francês demonstra curiosidade e receptividade pela arte brasileira. “O interesse existe e é muito forte. Quando você diz que vai representar artistas brasileiros, as pessoas se interessam. O Brasil é sempre bem-vindo na França”, afirma. Para ele, cabe aos galeristas desenvolver esse potencial e ampliar o intercâmbio cultural entre o Brasil e a Europa.

    O charme do Village Suisse

    Instalar-se no Village Suisse tem um peso simbólico. “É um lugar ‘vintage’ de Paris, consagrado às galerias de arte e antiquários, com mais de 60 galeristas próximos à Unesco e à Torre Eiffel”, descreve Machado. Criado em 1928, o local mantém sua aura sofisticada e, nos últimos anos, passou a atrair galerias de arte contemporânea: “Nós somos a oitava ou nona galeria contemporânea no espaço, que tem tudo a ver com esse projeto. Vai dar samba”, brinca o fundador.

    A Gávea pretende dialogar tanto com colecionadores experientes quanto com quem deseja iniciar sua coleção. “O colecionador começa em algum momento, então é importante ter artistas novos para acompanhar esse público, ao mesmo tempo que buscamos inserir nossos artistas em grandes coleções”, explica Machado. Sua experiência no setor começou em 2011, com colaborações para a Galeria Boulakia, próxima da Avenue Montaigne. “A arte já estava na minha cabeça há muito tempo, sempre fui apaixonado. Com essa colaboração, apresentei clientes a eles, artistas, algumas galerias no Brasil e fui aprendendo aos poucos como funciona esse mercado”, conta Machado.

    Paris no topo do mercado internacional

    Para Machado, a capital francesa vive um momento único. “Dá para perceber que Paris voltou a ser a bola da vez da arte mundial, sobretudo da arte contemporânea, com as fundações Louis Vuitton e Cartier. Dá para perceber isso nas feiras e exposições temporárias, sempre lotadas, com público internacional muito grande”.

    A Gávea Galeria funciona de quarta a segunda-feira, das 11h às 19h, no Village Suisse, boutique nº 20. Em 2028, o espaço celebrará o centenário do Village Suisse, reforçando a tradição do conjunto no coração artístico de Paris.

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  • Contestação pode dar lugar a ganhos: entrada em vigor pode mudar clima do acordo UE-Mercosul
    Jan 12 2026
    Os protestos de agricultores franceses contra o Acordo Comercial entre a União Europeia e o Mercosul continuam nesta segunda‑feira (12), com bloqueios de rodovias, acessos a portos e depósitos estratégicos na França. Ainda assim, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, “a partir do momento em que a parte comercial começar a funcionar, os efeitos positivos podem trazer novos argumentos para os defensores do acordo e reduzir a probabilidade de um bloqueio judicial”, disse à RFI. A mobilização dos agricultores franceses ocorre após a aprovação do tratado por 21 dos 27 países do bloco europeu, na sexta‑feira (9), encerrando um processo de negociação que se arrastou por 25 anos. O pacto será assinado no sábado (17), no Paraguai, e depois deverá ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde pode enfrentar resistência de alguns parlamentares. Para Estrada, membro da Unidade Sul Global da London School of Economics, o principal peso do acordo é político e simbólico, num contexto internacional marcado por tensões e críticas ao multilateralismo. “Reforçar um acordo multilateral baseado em regras, em normas, e não na força, é uma mensagem política muito forte neste momento de grande incerteza no cenário internacional”, destacou. O pacto ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde já se anunciam disputas políticas e jurídicas, sobretudo nos países que votaram contra ou se abstiveram, como França, Áustria, Hungria, Irlanda, Polônia e Bélgica. Mesmo assim, Estrada avalia que existe hoje uma disposição clara para levar o processo adiante. “Há, por enquanto, uma vontade política que tem sido mantida. No fim do ano passado, havia o risco de a Itália bloquear o acordo, mas, após muita negociação, o governo italiano acabou apoiando a assinatura”, lembrou. A pressão dos agricultores e a possibilidade de judicialização do tratado tendem a marcar os próximos meses em Bruxelas. “Já existem parlamentares falando em recorrer à Justiça europeia para tentar bloquear o acordo”, observou Estrada, acrescentando, porém, que o cenário não é de retrocesso imediato. “Eu prevejo uma grande discussão no Parlamento Europeu, mas também vejo muita vontade política de fazer esse acordo funcionar.” Segundo o pesquisador, a entrada em vigor do tratado pode, inclusive, mudar o clima político em torno dele. Apesar de ser apresentado como o maior acordo comercial do mundo, reunindo um mercado de 722 milhões de consumidores, o tratado sofreu mudanças significativas ao longo das negociações. “Em 1999, os negociadores tinham combinado uma base de 200 mil toneladas anuais de carne bovina que poderiam ser exportadas sem tarifa pelo Mercosul. Esse número caiu para 99 mil toneladas no acordo final”, afirmou. Ainda assim, Estrada relativiza o impacto econômico dessas concessões. Questionado sobre a possibilidade de alguns países simplesmente se recusarem a aplicar o acordo mesmo após a ratificação, Estrada foi categórico. “Eu vejo isso como algo difícil, porque, se cada país começar a agir por conta própria, a União Europeia deixa de funcionar.” Ele explicou que o bloco dispõe de “mecanismos de governança muito rígidos, com regras claras”, o que torna improvável uma aplicação seletiva do tratado. Precedente com acordo assinado com o Canadá O cientista político comparou o momento atual ao acordo comercial entre União Europeia e Canadá, o CETA, também alvo de fortes críticas no passado. “Quando ele começou a vigorar, o intercâmbio comercial aumentou e hoje quase não se vê protestos contra esse acordo”, recordou. Para Estrada, “o mais difícil já passou” e o essencial agora é que o pacto produza resultados concretos, capazes de lhe conferir legitimidade política. No caso francês, a oposição do governo ao acordo não deve ser confundida com os problemas enfrentados pelo setor agrícola, segundo o especialista. “A dificuldade dos agricultores franceses está ligada principalmente à perda de competitividade da agricultura francesa, e não diretamente à posição do presidente Emmanuel Macron”, avaliou. Ele acredita que o governo francês terá de agir internamente para recuperar essa competitividade. Tratado de complementaridade econômica Estrada também ressaltou que o acordo não estabelece um livre‑comércio irrestrito no setor agrícola. “Ele define cotas muito claras. O livre‑comércio só existe até o limite dessas cotas, e há mecanismos de salvaguarda que impedem uma invasão de produtos do Mercosul na União Europeia e vice‑versa”, explicou. Para ele, trata‑se mais de um acordo de complementaridade econômica do que de abertura total de mercados. No plano internacional, o cientista político minimizou riscos de retaliação externa, como por parte dos Estados Unidos. “Havia temor de que a Argentina, alinhada a Washington, criasse dificuldades para o acordo, mas...
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  • Intervenção dos EUA na Venezuela pode ser ensaio para conflito geopolítico mundial, diz especialista
    Jan 9 2026
    O cientista político Andrés Malamud, principal pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor em instituições na Argentina, Brasil, Espanha, Itália, México e Portugal, analisa a operação de Trump na Venezuela, o isolamento europeu diante dos EUA e o risco de um choque geopolítico mais amplo. Adriana Moysés, da RFI Na avaliação de Malamud, a intervenção dos EUA em Caracas foi “uma decapitação do regime” e pode anteceder um conflito “mais ao centro da geopolítica”, envolvendo a Groenlândia, que é um território autônomo do Reino da Dinamarca. RFI – O governo Trump instalou um protetorado na Venezuela ao fazer a presidente interina Delcy Rodríguez aceitar que a receita do petróleo fique sob controle de Washington para compras de produtos americanos? Andrés Malamud – É verdade. Não houve invasão; houve uma decapitação do regime, mantendo o aparelho. Delcy Rodríguez passou de vice a presidente e prometeu cumprir acordos, ao contrário de Maduro. Resta ver o papel dos militares (como os ministros do Interior, Diosdado Cabello, e das Forças Armadas, Vladimir Padrino). Por enquanto, o governo da Venezuela prometeu fazer o que os Estados Unidos pediram e, portanto, podemos dizer que passou de ditadura para protetorado, sem deixar de ser ditadura. RFI – Ao focar no ganho econômico, Trump dá satisfação ao eleitorado MAGA (Make America Great Again), que rejeita operações externas? Andrés Malamud – Parcialmente. A satisfação que ele dá é não ficar na Venezuela e fazer uma operação de extração encoberta por um procedimento judicial. O governo americano alega que foi um juiz de Nova York que pediu a captura de Maduro, como narcotraficante, e então os militares forneceram logística para um funcionário do FBI entrar no lugar onde Maduro estava refugiado, ler os seus direitos e capturá-lo. O MAGA tem sempre uma preocupação moral muito forte, que Trump não tem quando diz 'petróleo, petróleo, petróleo'. A prova que o movimento MAGA não ficou satisfeio é que seu líder, o vice-presidente JD Vance, não participou do planejamento da operação nem da conferência de imprensa posterior. Esta operação foi arquitetada pelo Marco Rubio, secretário de Estado, que não é MAGA, não é isolacionista. Rubio é um intervencionista neoconservador clássico, como o ex-presidente Bush. Pete Hegseth, secretário de Guerra, embora tenha perfil America First e relutante a intervir, admite operações contra inimigos como o Irã ou regimes comunistas. Para Marco Rubio, o próximo objetivo é uma mudança de regime em Cuba. Para Trump, o objetivo seria petróleo e interesses materiais. Na Venezuela, a desculpa de intervenção foi a droga, mas no fundo, o único fio condutor de todas estas tribos do governo americano é geopolítica: mandar a China, a Rússia e Cuba para fora da Venezuela. RFI – Rubio disse que o regime de Cuba cairia sozinho. Pode-se descartar algum tipo de operação mais truculenta contra a ilha? Andrés Malamud - Os Estados Unidos, sobretudo Trump, utilizam ambiguidade como instrumento. A mudança de regime de Cuba é um objetivo histórico dos EUA e também há dinheiro a fazer na ilha, como os americanos faziam antes da revolução comunista, com cassinos, praias e resorts. O regime de Cuba está muito fragilizado e sem o petróleo da Venezuela dificilmente conseguirá resistir. RFI – Qual seria o próximo alvo? Andrés Malamud – Provavelmente, o alvo seguinte é a Groenlândia. A ilha é território do Reino da Dinamarca; não integra a União Europeia, mas a Dinamarca pertence à OTAN. O que muitos veem como conflito periférico na Venezuela pode ser ensaio para algo maior e central na geopolítica: os Estados Unidos atacarem um aliado da OTAN. RFI – Ao não impor uma relação de força contra Trump, os europeus contribuem para a implosão da OTAN? Andrés Malamud - Os europeus estão em negação: dependem dos EUA para logística e tecnologia de defesa. Sem os EUA, não há defesa europeia. Agora, o problema é que precisam defender-se dos EUA. A analista italiana Nathalie Tocci diz que a Europa não foi abandonada, mas traída: os EUA não deixaram a Europa sozinha, estão contra ela. A Europa está cercada pela Rússia, que invade, pelos Estados Unidos, que tarifam e podem invadir. A China, ironicamente, é a única grande potência que não tem interesse em destruir a integração europeia. RFI – Como reagem Rússia e China diante desse avanço de Trump? Andrés Malamud – Na América Latina, o hemisfério ocidental, como os norte-americanos chamam, a China é reativa – faz aquilo que os EUA permitem fazer. Ela não avança contra os interesses norte-americanos. Mas na sua região, a China é proativa – Taiwan será decidido pela China, no seu tempo. No caso da Rússia, há suspeita de que tenha colaborado com os EUA na Venezuela, porque os EUA colaboram ...
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  • CES 2026: IA e robótica devem dominar o maior salão de tecnologia do mundo, diz consultor brasileiro
    Jan 7 2026
    A CES (Consumer Electronics Show), maior feira de tecnologia do mundo, realizada anualmente em Las Vegas, nos Estados Unidos, abre o calendário mundial do segmento desde 1967. No ano passado, a CES atraiu mais de 140 mil pessoas de 158 países. O consultor em tecnologia Henrique Ono explicou à RFI sua iniciativa de organizar uma missão de curadoria para ajudar a divulgar e facilitar o acesso às tecnologias de ponta por executivos brasileiros. Em 2026, o evento acontece de 6 a 9 de janeiro. Henrique Ono destaca que a CES é uma feira pioneira no segmento de tecnologia.“As principais tecnologias foram lançadas na CES. O videocassete, o Discman, o videogame Atari — na época ainda uma startup — foram descobertos nessa feira. Em tempos mais recentes, a própria Microsoft lançou edições do sistema operacional Windows durante o evento. No ano passado, por exemplo, a Nvidia, cujo fundador e CEO é Jensen Huang, utilizou a feira para apresentar lançamentos da empresa ao público mundial”, explica. Embora o Brasil esteja entre os 20 países que mais enviam visitantes, a participação brasileira ainda é considerada pequena, representando cerca de 0,5% do total, aproximadamente 450 pessoas dos mais de 141 mil participantes esperados para a edição de 2026. “Eu acredito que atualmente a participação brasileira é pequena por desconhecimento dos C-levels e das diretorias, das pessoas que trabalham nas empresas. Basicamente, ela não é uma feira tão fomentada no Brasil”, lamenta Ono. Segundo ele, essa desconexão faz com que as empresas brasileiras discutam temas tecnológicos com atraso. “Os assuntos ligados à tecnologia abordados nas empresas do Brasil são temas que já foram tratados na CES uma, duas ou três edições antes. Por isso, acho muito importante diminuir esse tempo entre o lançamento de uma tecnologia aqui em Las Vegas e sua chegada às discussões nas empresas brasileiras”, aponta. Objetivo da missão brasileira na Consumer Electronics Show Henrique Ono, que participa pela sexta vez da CES, explica que sua principal intenção é levar o conhecimento das novas tecnologias aos empresários no Brasil. “Eu pessoalmente tenho a iniciativa de conectar e levar esse conteúdo cada vez mais, para mostrar a importância da feira para os brasileiros”. “A missão brasileira é, de fato, fazer uma curadoria. Porque é uma feira muito grande: são mais de 4.500 expositores em quatro dias. Então, a ideia é entender os objetivos individuais de cada pessoa e empresa para montar uma trilha personalizada e explorar as tecnologias mais relevantes”, destaca. Atualmente, nenhuma empresa do Brasil integra a delegação de expositores da feira. Mas o consultor sugere soluções para estimular uma futura participação brasileira na CES por meio de parcerias com outros países. Segundo ele, países como França, Israel, Japão e Coreia do Sul alugam espaços na CES para levar expositores de suas delegações e integrar parcerias. Inteligência Artificial e robótica dominam as tendências Antes mesmo do primeiro dia da CES, que começou oficialmente na terça-feira (6), Henrique Ono avaliou o evento de prévia da feira, o CES Unveiled, realizado no domingo (4), que elenca algumas empresas que tiveram destaque com soluções ou produtos inovadores. “Eu pude observar basicamente todo mundo falando de Inteligência Artificial, mas também muitas aplicações de IA, principalmente na área de saúde”, diz o consultor. “Muitas empresas de saúde, as health techs, estão criando soluções que vão desde softwares até dispositivos para combater a solidão, voltadas para pessoas da terceira idade, e para ajudar no monitoramento de saúde. Foi o spoiler que eu vi nesse evento antecipado”, destaca Ono. Aplicações práticas e impacto no mercado brasileiro Em seu trabalho como empreendedor, Henrique Ono sublinha a aplicação de tecnologias obtidas por ele em edições anteriores da CES em sua consultoria personalizada de viagens, a 'Viajante Pro', criada há dois anos. “Existem algumas tecnologias de IA que permitem prever estatísticas de precificação de voos ou hospedagens e acompanhar a aviação. Nós conseguimos indicar ao cliente qual é a chance de preços caírem ou de determinado voo atrasar, baseado em estatísticas”, explica. Por fim, Henrique Ono aposta em novidades em robótica na feira, devido ao crescimento expressivo da robótica humanoide observado na CES. O setor de robótica da Consumer Electronics Show cresceu quatro vezes em um ano. “Acredito que vai haver muita discussão sobre Physical AI, basicamente, a Inteligência Artificial associada a um dispositivo físico. Veremos muitas soluções voltadas para robótica. Aliás, este ano a CES criou uma área específica para expositores com soluções humanoides. No ano passado, havia cerca de 20 empresas; este ano, entre 80 e 100. Ou seja, quatro vezes ...
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  • 'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista
    Jan 6 2026
    Para Gabriel Petrus, professor da universidade Sciences Po, em Paris, e especialista em relações internacionais e negociações globais, a crise aberta pela prisão de Nicolás Maduro nos Estados Unidos poderia ter sido evitada se o Brasil e outros países tivessem sido mais incisivos na cobrança por eleições livres na Venezuela. “Se o Brasil tivesse pressionado Maduro a sair do poder ou a fazer uma transição democrática, talvez não estivéssemos diante dessa situação”, disse em entrevista à RFI. Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla. O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.” Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla. O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.” Fragmentação global e cálculo estratégico Na leitura de Petrus, a decisão do presidente Donald Trump deve ser entendida à luz de um mundo profundamente fragmentado, inclusive no interior de organizações tradicionais. Segundo ele, a erosão da coesão em instâncias como a União Europeia e a Otan cria um ambiente em que o uso da força ganha peso desproporcional nas relações internacionais. “Vivemos um cenário de fragmentação muito grande. Nesse contexto, o jogo da força, infelizmente, pesa mais do que deveria”, afirmou, acrescentando que a intervenção na Venezuela se insere numa estratégia de afirmação geopolítica mais ampla. A janela energética e o risco de concentração Na avaliação de Petrus, a dimensão energética é central para entender a operação americana. A Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ainda em grande parte não exploradas, sobretudo em razão da nacionalização do setor ao longo de mais de quatro décadas. Para o professor, uma eventual mudança de regime pode alterar profundamente as regras do jogo e reabrir o país à exploração por empresas estrangeiras. “A Venezuela participou da fundação da Opep e nacionalizou o petróleo de forma soberana. Hoje, uma possível mudança de regime pode significar também uma mudança das regras, com a reabertura da exploração para empresas multinacionais”, afirmou. Petrus pondera, no entanto, que não está claro se essa abertura resultaria em concorrência efetiva ou em uma concentração de poder econômico sob liderança americana. “A questão é saber se, de fato, outras empresas poderão concorrer — como a Petrobras, no Brasil, ou a Total, na França — ou se os Estados Unidos vão criar uma espécie de monopólio desses bens naturais”, disse. Segundo ele, a dúvida está diretamente ligada à nova doutrina de política externa anunciada recentemente por Trump. “A política externa americana passou a privilegiar explicitamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos, incluindo o domínio de recursos naturais considerados essenciais para a segurança nacional.” Para Petrus, esse reposicionamento explica por que a Venezuela se tornou um alvo central. “Estamos falando de um país com um potencial de exploração de petróleo talvez único hoje, justamente porque esse recurso ficou nacionalizado por décadas. A mudança política ali tem implicações que vão muito além da democracia ou da geopolítica regional.” No Congresso americano, parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora. Multilateralismo sob pressão e o 'dia seguinte' Petrus define o momento atual como um “momento de perigo” para a ordem internacional, não apenas pela operação na Venezuela, mas pelo acúmulo de crises que enfraquecem o multilateralismo. Ainda ...
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